O Instante Suspenso
Este vaso em terracota, com o seu vidrado metálico lustroso, a superfície fracturada e o gotejamento suspenso do esmalte, estabelece um diálogo visual e conceptual com a *Natureza-morta* de Pieter Claesz, criando um contraponto tridimensional à tradição vanitas do século XVII. As naturezas-mortas pintadas por Claesz apresentam objetos comuns — cálices, pão, cascas de limão — dispostos para evocar a transitoriedade, a mortalidade e a beleza silenciosa do quotidiano, obrigando o observador a confrontar a relação entre o tempo e a materialidade.
Num gesto paralelo, este vaso dá corpo à efemeridade e à fragilidade que Claesz inscreve nas suas composições. A terracota, fendida e perfurada por um fragmento de faiança tradicional portuguesa, revela camadas de tradição e ruptura. Tal como os reflexos cintilantes nos vidros e a prata baça das naturezas-mortas, o vidrado remete para o brilho subtil da prata e do estanho, sugerindo um luxo delicado e transitório.
A gota de esmalte suspensa funciona como um memento mori tátil — um instante da matéria eternamente congelado antes da sua queda inevitável. A sua curva lembra a espiral da casca de limão que Claesz deixa pender da mesa, entre a ordem e o colapso. Ambas as formas captam a mesma graça suspensa, corporizando o próprio tempo tornado visível: uma em óleo sobre madeira, a outra solidificada em barro e esmalte.
Ao incorporar a asa partida de um recipiente tradicional, a peça entrelaça herança e impermanência, passado e presente. Tal como Claesz utiliza a luz e os reflexos para tornar percetível o que escapa a um olhar apressado, este vaso assume as suas fissuras e gotejamentos como testemunhos da resistência e da mudança.
Assim, tanto a pintura de Claesz como este trabalho celebram a beleza do imperfeito e do momento que passa. Ambos nos convidam a abrandar o olhar, a reconhecer o valor daquilo que é transitório e a aceitar as fendas, os gotejamentos e as espirais como sinais eloquentes do tempo, da mão humana e da persistência da experiência.
terracotta, vidrado, pega antiga (faiança)
17 x 14 x 22
English
Suspended Moment
This terracotta vase, with its lustrous metallic glaze, fractured surface, and suspended drip of glaze, establishes a visual and conceptual dialogue with Pieter Claesz’s Natureza Morta, creating a three-dimensional counterpoint to the seventeenth-century vanitas tradition. Claesz’s still lifes depict common objects — goblets, bread, lemon peels — arranged to evoke transience, mortality, and the quiet beauty of the everyday, compelling the viewer to confront the relationship between time and materiality.
In a parallel gesture, this vase embodies the ephemerality and fragility that Claesz weaves into his compositions. The terracotta, split and pierced by a fragment of traditional Portuguese faience, reveals layers of tradition and rupture. Like the shimmering reflections on glass and the tarnished silver in the still lifes, the glaze evokes the subtle sheen of pewter and silver, suggesting a delicate, fleeting luxury.
The suspended droplet of glaze acts as a tactile memento mori — a single moment of matter frozen forever before its inevitable descent. Its languid curve recalls the spiraling lemon peel that Claesz allows to hang off the edge of the table, poised between order and collapse. Both forms seem captured in a suspended instant, making time itself visible: one in oil on wood, the other solidified in clay and glaze.
By incorporating the broken handle of a traditional vessel, the piece intertwines heritage and impermanence, past and present. Just as Claesz uses light and reflections to reveal what a hurried glance might miss, this vase embraces its cracks and drips as signs of resilience and transformation.
Thus, both Claesz’s painting and this work celebrate the beauty of the imperfect and the fleeting moment. They invite us to slow our gaze, to recognize the value of what is transient, and to accept fissures, drips, and spirals as eloquent markers of time, human touch, and enduring experience.
terracotta, glaze, old handle (white earthenware)
17 x 14 x 22
Onree
Henri Roque é um ceramista a viver em Portugal que explora os limites da tradição através da experimentação ousada e da aceitação do imperfeito. Formado no Japão depois da licenciatura na Alfred University, valoriza falhas e superfícies imprevisíveis como elementos vitais da sua obra. Os seus vasos e esculturas captam o tempo, o processo e a resiliência, revelando a poesia discreta e inacabada da argila.
English
Henri Roque is a Portugal-based ceramic artist who explores tradition’s edges through bold experimentation and an embrace of the imperfect. Trained in Japan after earning a BFA at Alfred University, he celebrates flaws, and unpredictable surfaces as vital elements of his work. His vessels and sculptures capture time, process, and resilience, revealing the beauty of clay’s natural, unresolved poetry.
Land Ceramics
Rua do Rosário 294
Matéria Prima
Rua de Miguel Bombarda 232