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Por Julho 15, 2025Julho 25th, 2025No Comments

O azedo em mim

Partindo da dramaticidade da pintura “Natureza-morta” (1645), de Pieter Claesz, este trabalho propõe uma leitura simbólica e sensorial a partir de um elemento específico da obra original: o limão cortado, com a casca pendente em espiral — fragmento silencioso de um momento interrompido. Reconhecido por transformar cenas domésticas em composições densas e meditativas, Claesz explorava uma paleta contida, onde luz e sombra acentuavam o sentido do tempo suspenso. É nesse clima de pausa e tensão que nasce a inspiração para esta peça. Em “O azedo em mim”, o limão — já presente de forma recorrente na minha prática cerâmica sob uma ótica mais lúdica — é aqui ressignificado. Surge revestido de outra camada: mais terrosa, mais íntima, mais contida. Duas peças representando limões descascados, acompanhadas de cascas cerâmicas com palavras gravadas como jardim, prazeres, farturas e temperos, repousam sobre terra escura, dentro de uma caixa de madeira. Este arranjo constrói uma paisagem interna — um jardim emocional — onde os fragmentos evocam não apenas a natureza morta barroca, mas também a natureza viva do sentir. A escolha por materiais naturais e tons opacos dialoga com o jogo de luz e sombra, de presença e ausência, característico da pintura de Claesz. A terra funciona como base silenciosa, acolhendo os fragmentos e evocando esse pequeno jardim de sensações que atravessamos ao longo da vida. O poema que acompanha a obra atua como extensão sensível desse gesto: “o azedo em mim pinga, pinga no jardim, jardim de faturas e prazeres, excessos de mim, azedo tempero sem fim, em mesas fartas de jardim”. A palavra gravada vira matéria e vice-versa: o texto poético revela a tensão entre prazer e acúmulo, entre o desejo e o que ele deixa para trás. O uso do limão se expande — como forma, como memória, como sensação. É tempero e interrupção, beleza e desconforto. “O azedo em mim” convida à reflexão sobre nossas próprias camadas e contradições: o que escondemos e o que deixamos à mostra; o que consumimos — e o que, lentamente, nos consome.

 

grés, engobe, óxidos, terra e caixa de madeira

26 x 26 x 11 limao 15x23x9, limao2 11x13x7



English

The Sourness in Me

Drawing from the dramatic atmosphere of the painting Still Life (1645), by Pieter Claesz, this work offers a symbolic and sensorial interpretation based on a specific element from the original composition: the sliced lemon, its peel hanging in a spiral — a silent fragment of an interrupted moment. Known for turning domestic scenes into dense, meditative compositions, Claesz worked with a restrained palette, using light and shadow to emphasize the feeling of suspended time. It is within this tension, this stillness, that the inspiration for this piece emerges. In “The Sourness in Me”, the lemon — a recurring figure in my ceramic practice, often approached in a more playful tone — is here reimagined. It takes on a different layer: more grounded, more intimate, more subdued. Two ceramic pieces representing peeled lemons, accompanied by lemon peels engraved with words such as garden, pleasures, bills, and seasonings, rest on dark soil inside a wooden box. This arrangement builds an internal landscape — an emotional garden — where these fragments evoke not only the baroque still life, but also the living nature of feeling. The choice of natural materials and muted tones echoes the play of light and shadow, of presence and absence, so central to Claesz’s visual language. The soil acts as a silent base, holding the fragments and evoking that small garden of sensations we all pass through in life. The poem that accompanies the work extends this gesture in a sensorial form: “the sourness in me drips, drips into the garden, a garden of bills and pleasures, excesses of me, sour spice without end, on lavish garden tables”. The engraved words become material, and the material becomes text. The poem exposes the tension between pleasure and accumulation, between desire and what it leaves behind. The lemon expands as metaphor — as shape, as memory, as sensation. It is seasoning and rupture, beauty and discomfort. “The Sourness in Me” invites reflection on our own layers and contradictions: what we hide and what we reveal; what we consume — and what slowly consumes us.

 

stoneware, engobe, oxides, soil and wooden box

26x26x11, limao 15x23x9, limao2 11x13x7



Créditos Fotografias  | Photography CreditsFabrícia Leme

Fabrícia Leme

Fabrícia Leme é artista visual com formação em artes e experiência em mediação e organização de exposições. Viveu na Áustria, onde estudou cerâmica por dois anos. Apaixonada por museus, já visitou mais de uma centena ao redor do mundo. Atualmente reside no Porto, onde continua a sua pesquisa em cerâmica, inspirando-se nas marcas e texturas do ambiente urbano.

 

https://www.instagram.com/fabygalerie/



English

Fabricia Leme is a visual artist with a background in arts and experience in exhibition mediation and curation. She lived in Austria, where she studied ceramics for two years. Passionate about museums, she has visited over a hundred worldwide. She currently resides in Porto, where she continues her ceramic practice, drawing inspiration from the textures and marks of the urban environment.

 

https://www.instagram.com/fabygalerie/



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