A Caneca Inglesa
Em 1719, sob proteção régia de D. João V, ergueu-se em Coina uma fábrica com um propósito preciso: produzir vidro cristalino em Portugal. O cristallo de Veneza era importado, caro, símbolo de prestígio que escapava à produção nacional. A Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina foi a resposta a esse problema — técnica, económica e politicamente.
Da produção dessa manufatura chegou até nós a peça que serve de ponto de partida à edição 2026 do Afinidades: uma Caneca Inglesa, em vidro incolor transparente lapidado, datada entre 1719 e 1747, pertencente à coleção do Museu Nacional Soares dos Reis.
Forma, função e lapidação
A caneca insere-se na corrente internacional dos vidros façon d’Angleterre — o modelo é inglês, o vaso cilíndrico assente em base simples com asa. Mas a execução é local, e é aí que reside parte do seu interesse. A ornamentação vegetalista, de traço estilizado, é contida. O que define esteticamente a peça é a lapidação: cada faceta trabalhada intensifica o índice de refração, decompõe a claridade em múltiplos reflexos. Não é adorno — é um gesto técnico que conquista o brilho.
Durante muito tempo, desconhecia-se que a fábrica de Coina dominasse essa técnica. Foram as escavações arqueológicas realizadas no espaço da antiga manufatura, em finais do século XX, que vieram confirmar esse domínio — e revelar o alcance das soluções artísticas então produzidas.
Um objeto para interpretar
O Afinidades 2026 — Práticas Gráficas Contemporâneas propõe aos artistas não a representação desta peça, mas a sua interpretação. Linha, contorno, transparência, superfície, refração — são territórios que a Caneca Inglesa partilha com a prática gráfica. O desafio é encontrar o que nela permanece ativo, o que ainda tem algo a dizer quando traduzido para o papel.
Para apoiar esse processo, Paula Oliveira, gestora de coleção do MNSR, apresentou a peça em detalhe — a sua história, a sua forma, o que a torna singular no contexto da coleção de vidro do Museu.
Esse registo está disponível abaixo, em podcast e em vídeo.
organização, apoios e parceiros
O projeto Afinidades é promovido pelo Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR) em parceria com a Associação Quarteirão Criativo, contando com mecenato do Super Bock Group e apoio do Círculo Dr. José de Figueiredo – Amigos do Museu Nacional Soares dos Reis.