Do programa de capacitação à primeira biblioteca de coisas do Porto: o balanço de seis meses de cocriação no Quarteirão Bombarda.
Na sexta-feira, 11 de setembro, o Porto Innovation Hub acolheu o Evento Final de Disseminação do Bombarda CircuLAB — Laboratório Vivo para a Circularidade e Transição Digital. O encontro encerrou formalmente esta edição do programa e deu a conhecer o seu resultado mais visível: a Bombateca, a primeira biblioteca de coisas da cidade do Porto.
Ao longo da tarde, participantes, parceiros, comerciantes e representantes institucionais reuniram-se para revisitar o percurso, partilhar resultados e aprendizagens e, sobretudo, discutir o futuro de uma solução nascida da própria comunidade.
Um projeto com a cidade
A sessão abriu com as palavras de Rodrigo Passos, Vereador do Pelouro da Transformação Digital e Serviços ao Cidadão da Câmara Municipal do Porto, de Ana Carneiro, CEO da Porto Digital, e de Tânia Almeida Santos, Presidente da Associação Quarteirão Criativo.
O momento sublinhou o papel da Convocatória Aberta 2025 — iniciativa da Câmara Municipal do Porto, coordenada pela Porto Digital — como o desafio que tornou possível transformar o Quarteirão Bombarda num micro-laboratório de inovação urbana circular. O projeto dá continuidade ao piloto Bombarda Circular, de 2024.
Da capacitação à experimentação no território
Seguiu-se a apresentação da metodologia que orientou todo o processo: o modelo de design thinking ReEVOLUTIØN 6, desenvolvido pela MindShake, aplicado à cocriação e experimentação no território.
Entre abril e junho, comerciantes, artistas, moradores e agentes culturais participaram em sessões presenciais e online de capacitação em economia circular. Juntos, mapearam fluxos de recursos e desperdícios no quarteirão, geraram ideias e desenvolveram três protótipos. Um deles foi selecionado para implementação experimental como MVP.
O evento marcou também a estreia do vídeo que documenta este percurso — da identificação dos desafios do território à cocriação, teste e implementação de uma ideia desenvolvida pela própria comunidade.
Bombateca: a primeira biblioteca de coisas do Porto
O momento central da tarde foi a apresentação da Bombateca, o projeto-piloto que resultou do CircuLAB. Mais do que uma biblioteca de coisas, a Bombateca é um espaço de empréstimos, trocas, doações e saberes que aproxima moradores, artistas, comerciantes e visitantes através daquilo que usam, sabem e podem partilhar. O lema resume a ideia: os objetos circulam, as relações crescem.
O modelo é descentralizado. A Bombateca não é um balcão, é uma rede: os objetos estão distribuídos por vários pontos do quarteirão — as «Bombas» — à guarda dos comerciantes locais. A requisição faz-se online, em bombateca.pt, e o levantamento e a devolução fazem-se no local.
Cada objeto tem um QR code que funciona como «passaporte», guardando a sua história e o seu percurso de mão em mão. E, porque requisitar implica percorrer o bairro, cada empréstimo é também uma forma de conhecer os negócios do quarteirão e criar novas relações.
A rede conta atualmente com o CRU Creative Hub (Bomba 1) e a Maria Maria Second Hand (Bomba 2), e prepara-se para crescer com a Scar-Id, o Kuri Kuri e a Open Box. O Café Célia, a Open Box e o CRU acolhem também os eventos comunitários da Bombateca.
O piloto foi desenvolvido por Cristiana Morais, Cristina Sousa, Filipa Correia, Júlia Rocha e Ana Anjos, com a facilitação de Joana Alves dos Santos (MindShake) — uma equipa que junta design de produto, UX, marketing, eventos e engenharia.
Do pitch ao piloto: três meses no quarteirão
Selecionada a 6 de junho, a equipa dedicou o mês seguinte à identidade, à marca e à plataforma digital. A 4 de julho, a Bombateca fez a sua primeira aparição pública nas Inaugurações Simultâneas e, a 9 de julho, foi oficialmente lançada no âmbito do evento Bombarda Circular.
Seguiram-se a participação no Repair Café Bombarda, a 18 de julho, e um ciclo de eventos de demonstração que fizeram da Bombateca também uma biblioteca de saberes: «Partir, Juntar, Circular» (22 de julho, Open Box), «Roto, Remendo, Reúso» (2 de setembro, Café Célia) e «Descartar, Recriar, Circular» (5 de setembro, CRU Creative Hub).
Em agosto, a equipa apostou na comunicação de proximidade — email, newsletter e Instagram — e lançou uma auscultação ao bairro com uma pergunta simples: «De que precisas?»
Primeiros resultados
Até 7 de setembro, a Bombateca reunia 25 objetos no acervo, 45 membros e 10 requisições, e os eventos comunitários somavam 68 inscrições.
No digital, o site registou 1 766 visitas e a newsletter chegou aos 74 subscritores, com uma taxa de abertura de cerca de 32%. No Instagram, a Bombateca conta com 334 seguidores e 19,6 mil visualizações mensais, 80% das quais de novos públicos.
O número real de doações é superior ao registado, já que nem todas as contribuições da comunidade entraram ainda no acervo. Também a rede de parcerias cresceu: 9 parceiros formais — entre espaços, reparação e programa — e cerca de 16 novas conversas em curso, entre convites enviados e propostas recebidas.
Aprendizagens e próximos passos
A última parte do encontro foi dedicada a uma conversa aberta sobre o que o laboratório vivo permitiu aprender. Ficaram validados o interesse da comunidade pelo conceito, a rapidez na construção de um catálogo significativo, o modelo de guarda descentralizada do acervo e a adesão aos eventos comunitários. O piloto confirmou ainda a importância de uma comunicação coerente em todos os canais, com um tom de proximidade.
Há também pontos a melhorar: simplificar o fluxo de doação, requisição e devolução, reforçar a informação nas Bombas e junto dos objetos, integrar no site a medição de impacto e criar um guia para os comerciantes que acolhem o acervo. Ficam ainda por testar momentos itinerantes, empréstimos entre pares, diferentes níveis de filiação e modelos de contribuição voluntária.
A continuidade da Bombateca depende de quatro condições: espaços para o acervo e os encontros, um modelo de sustentabilidade que mantenha o projeto funcional e aberto, uma rede de parcerias alargada e uma equipa para o dinamizar e cuidar. Pelo caminho, o CircuLAB deixa também um modelo replicável noutros bairros e cidades.
O encontro terminou com um brinde e um momento de convívio — e com uma pergunta lançada a todos os presentes: que próximo passo damos juntos?
O Bombarda CircuLAB é promovido pela Associação Quarteirão Criativo, em parceria com a MindShake, no âmbito da Convocatória Aberta 2025 — uma iniciativa da Câmara Municipal do Porto, coordenada pela Porto Digital.



















