Eles comem tudo
Como na natureza-morta de Pieter Claesz, que revelava o colonialismo holandês através de banquetes interrompidos, esta peça ecoa o grito de Zeca Afonso em “Os Vampiros” – denúncia crua de um sistema que devora corpos e recursos. O corpo-máquina de cerâmica, com o seu vidrado de crude e ferrugem, materializa o festim contemporâneo: somos simultaneamente comensais e alimento na mesa global. As flores secas, dispostas como uma tentativa de coroa fúnebre, e o coração e entranhas de látex translúcido, esvaziados de conteúdo e sem sangue, são os restos deste banquete pós-colonial – já não são os troféus exóticos como nas pinturas de Claesz, mas resíduos industriais de corpos consumidos. O título, emprestado da canção de protesto, transforma a peça em partitura visual: onde Zeca cantava “eles comem tudo e não deixam nada”, a cerâmica mostra o que sobra quando tudo foi devorado.
A toalha desalinhada de Claesz encontra o seu equivalente no látex esventrado – ambos revelam a violência por trás da encenação civilizada. Mas aqui, a borboleta efêmera é substituída por flores que já nem podem murchar, num luto impossível por corpos que o sistema não reconhece como dignos da sua vida e humanidade. A peça não procura iludir o olho como Claesz, mas escancara: enquanto na mesa global alguns se deliciam com porcelanas e petróleo, outros viram combustível do banquete.
faiança, látex e flores secas
48 x 48 x 50cm
English
Eles comem tudo
Like Pieter Claesz’s Still Life, which revealed Dutch colonialism through interrupted banquets, this piece echoes Zeca Afonso’s cry in “Os Vampiros” – a raw denunciation of a system that devours bodies and resources. The ceramic body-machine, with its glaze of crude oil and rust, materializes the contemporary feast: we are both eaters and food at the global table. The dried flowers, arranged as a failed attempt at a funeral wreath, and the translucent latex heart and entrails, emptied of content and bloodless, are the remains of this post-colonial banquet – no longer exotic trophies as in Claesz’s paintings, but industrial waste from consumed bodies. The title, borrowed from the protest song, transforms the piece into a visual score: where Zeca sang “they eat everything and leave nothing”, the ceramics show what remains when everything has been devoured.
Claesz’s disheveled towel finds its equivalent in the gutted latex – both reveal the violence behind the civilized staging. But here, the ephemeral butterfly is replaced by flowers that can no longer wither, in an impossible mourning for bodies that the system does not recognize as worthy of their life and humanity. The piece doesn’t try to deceive the eye like Claesz, but it does make it clear: while at the global table some people feast on porcelain and oil, others become fuel for the banquet.
earthenware, latex, dried flowers
48 x 48 x 50cm
Maria Palma
Maria Palma (1997), artista multidisciplinar, vive e trabalha no Porto. É Mestre (2024) em Artes Plásticas-Escultura pela FBAUP. É através da criação de formas orgânicas, que remetem para a corporeidade, que investiga as noções de cuidado e empatia na prática artística como método de cura. Acredita que a prática artística e a experimentação técnica criam relações de comunhão entre os indivíduos, combatendo assim a solidão comum na sociedade atual. Trabalha principalmente nos domínios da escultura e da performance.
Destacam-se as exposições no Centro de Arte Contemporânea Meymac (França, 2022) e na bienal Contextile ‘24, em Guimarães. A sua última exposição individual foi em outubro de 2024 no CABB (Coimbra). Recebeu uma Menção Honrosa na Aquisição da FBAUP em 2023, com a obra ‘’As minhas dores e os meus amores’’ e, em 2024, ganhou o prémio MNJC Gerador na categoria Escultura com a obra “Só mais um bocadinho”.
English
Maria Palma (1997), multidisciplinary artist, lives and works in Porto. She holds a Master’s degree (2024) in Fine Arts-Sculpture from FBAUP. It is through the creation of organic forms, which refer to corporeality, that she investigates the notions of care and empathy in artistic practice as a method of healing. She believes that artistic practice and technical experimentation create relationships of communion between individuals, thus combating the loneliness common in today’s society. She works mainly in the fields of sculpture and performance. Highlights include exhibitions at the Art Center Contemporary Meymac (France, 2022) and at the Contextile biennial ’24, in Guimarães. Her last solo exhibition was at October 2024 at CABB (Coimbra). She received a Honorable Mention at the FBAUP Acquisition Prize in 2023, with the work ‘’As minhas dores e os meus amores’’ and, in 2024, won the MNJC Gerador prize in the Sculpture category with the work “Só um mais bocadinho”.